Michaela Iacoe
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Uma língua portuguesa nas Caraíbas
Há uma língua muito parecida com o português perdida nas Caraíbas. E não é que os espanhóis andam de olho nela?

Mas donde vem esta língua?

Como acontece em muitos outros casos, não se sabe muito bem qual é a origem concreta deste crioulo em particular. Quando alguém começou a escrever em papiamento, já as gerações que o tinham criado tinham desaparecido muitos séculos antes.

É relativamente óbvio que a origem de grande parte do vocabulário é ibérica — mas não há certezas para além dessa. Há indícios de que a base é portuguesa, com influências espanholas e de outras línguas (incluindo o holandês). Um dos indícios é a proximidade gramatical ao crioulo cabo-verdiano, que ninguém acha ter alguma coisa que ver com o espanhol

Ora, aqui dou um salto. Este fato delicioso sobre as línguas do mundo ajuda-nos a ver como cada país vê o mundo à sua maneira — por vezes, de forma muito sutil.

O leitor que queira saber mais sobre este crioulo pode rumar à Wikipédia portuguesa. A língua é descrita assim: «O papiamento é uma língua crioula derivada do português e de línguas africanas, com algumas influências de línguas indígenas da América, inglês, neerlandês e espanhol.»

Rumemos agora à Wikipédia castelhana. Aqui está a descrição do papiamento (em espanhol, no original): «Trata-se de uma língua crioula. É provável que o seu léxico provenha principalmente do espanhol, à mistura com palavras de origem portuguesa, indígena e de diversas línguas africanas.» A enciclopédia virtual dos nossos vizinhos continua, explicando que o papiamento «tem por base um crioulo africano-português levado para o outro lado do oceano pelos escravos e reforçado pelos judeus sefarditas que saíram dos enclaves holandeses do Brasil».

Bem, se virmos bem, os fatos são parecidos nas duas versões: até os espanhóis apontam para os crioulos africanos de base portuguesa. Mas a versão portuguesa sublinha a origem portuguesa, enquanto a espanhola repara em primeiro lugar no léxico espanhol.

Nada a dizer: fazemos isto todos os dias. Aquilo em que reparamos, a maneira como contamos os mesmos fatos — tudo depende muito da nossa perspectiva. Este fato da vida, multiplicado por séculos e séculos, leva a histórias contadas de maneira diferente dos dois lados da fronteira.

Não confundamos, no entanto, isto que acabei de dizer com alguma espécie de «vale tudo». Os fatos existem… Por exemplo, sobre o papiamento podemos dizer com segurança que é uma língua com uma intrigante proximidade às nossas línguas ibéricas, com uma história que passa pelas conversas dos escravos, dos judeus sefarditas fugidos do Brasil, da mistura de europeus, africanos e nativos americanos.

Uma língua fascinante que os portugueses do século XXI, conseguem compreender às apalpadelas — e que os lembra quão complicada, obscura e enredada foi a nossa História.

E pronto: o meu primo encontrou uma galiña num restaurante e acabamos todos por encontrar umas quantas palavras de sabor português e roupa tropical numa ilha das Caraíbas.
Michaela Iacoe
Enviado por Michaela Iacoe em 07/11/2018
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