Michaela Iacoe
Sentimentos, Poesias,  Cronicas
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Remédios do amor
Diz que é de amor e de amor nosso, e de amor incurável, de amor, de amor nosso, de amor incurável, de amor e sem remédio, e sem remédio.
Tudo conquista o amor quando conquista uma alma, porém o primeiro rendido é o entendimento. Usar de razão e amar são duas coisas que não se ajuntam. Diz que é de amor e de amor nosso, incurável, sem remédio.
O amor deixará de variar se for firme, mas não deixará de tresvariar se for amor. São as afeições como as vidas, de não há mais certo sinal de haverem durado pouco e de haverem durado muito. São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas. De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo, afrouxa-lhe o arco com que já não tira, em bota-lhe as setas com que já não fere, abre-lhe os olhos com que vê o que não via, e faz-lhe crescer as asas com que voa e foge. Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino. Porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho.

O segundo remédio do amor é a ausência. Muitas enfermidades se curam só com a mudança do ar; o amor, com a da terra. É o amor como a lua que, em havendo terra em meio, dai-o por eclipsado. E que terra há que não seja a terra do esquecimento, se vos passastes a outra terra? Se os mortos são tão esquecidos, havendo tão pouca terra entre eles e os vivos, que podem esperar, e que se pode esperar dos ausentes? Se quatro palmos de terra causam tais efeitos, tantas léguas que farão? Em os longes, passando de tiro de seta, não chegam lá as forças do amor.
Os olhos são as frestas do coração, por onde respira, e daqui vem que o coração na presença, em que tem abertos os olhos, por eles evapora, e exala os afetos. Porém na ausência, em que os tem tampados pela distância, que lhe sucede? Assim como um vaso sobre o fogo, que tapado e não tendo por onde respirar concebe maior calor e talvez rebente; assim o coração ausente, faltando-lhe a respiração da vista, e não tendo por onde dar saída ao incêndio, recolhe dentro de si toda a força e ímpeto do amor, e quão cresce naturalmente, e se acende e se adelgaça de sorte, que não cabendo no mesmo coração, rebenta, nos maiores e mais extraordinários efeitos.

A natureza e a arte, curam contrários com contrários, sendo, pois, a ingratidão o maior contrário do amor quem duvida que este terceiro remédio seria também o último e mais eficiente e eficaz? A virtude que lhe dá tamanha eficácia, se eu bem o considero, é ter este remédio da sua parte a razão. Diminuir o amor o tempo, esfriar o amor a ausência, é sem-razão de que todos se queixam; mas que a ingratidão mude o amor e o converta em aborrecimento, a mesma razão o aprova, o persuade, e parece que o manda. Que sentença mais justa que privar do amor a um ingrato? O tempo é natureza, a ausência pode ser força, a ingratidão sempre é delito. E ferido o amor no cérebro, e ferido no coração, como pode viver?

É, pois, o quarto e último remédio do amor, e com o qual ninguém deixou de sarar: o melhorar de objeto. Dizem que um amor com outro se paga, e mais certo é que um amor com outro se apaga. Diz que é de amor, de amor nosso, de amor incurável, e sem remédio
É o amor entre os afetos como a luz entre as qualidades.
Comumente se diz que o maior contrário da luz são as trevas, e não é assim. O maior contrário de uma luz é outra luz, maior. As estrelas no meio das trevas luzem e resplandecem mais, mas em aparecendo o sol, que é luz maior, desaparecem as estrelas.
Michaela Iacoe, Pe. Antônio Vieira e 1643
Enviado por Michaela Iacoe em 23/08/2019
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